Webdesigner, arquiteto da informação, técnico de seleção de futebol ou presidente da república. São todos uns malditos.

Existem algumas vantagens em algumas profissões que pessoalmente eu invejo. Mas todas parecem possuir alguma desvantagem em algum aspecto, mas outras possuem muito mais. Calma que não estou lamentando a profissão que escolhi e muito menos quero buscar novos ares. Mas acompanhe comigo o que realmente eu quero dizer.

Doutor, o senhor não está me entendendo!

Quando você sofre algum acidente e é preciso procurar algum pronto-socorro para dar alguns pontos, o máximo que você diz ao enfermeiro ou médico que executou a tarefa é um “obrigado”. Você olha para o serviço dele, e aguarda os resultados somente esperando que a ferida cicatrize e que não deixe marcas. As reclamações em relação ao trabalho dos médicos geralmente se resumem a morte do paciênte ou a sua “quase” morte. Mesmo que de médico e louco todos temos um pouco, ninguém olha pra um curativo e diz: “humm eu acho que este terceiro nó do ponto foi desnecessário, achei que poderia ser melhorado. Será que você poderia mudar isto aqui por favor”?

Insano não? Geralmente as críticas dadas aos médicos, estão mais relacionados ao atendimento e a letra dos atestados do que propriamente ao “serviço” prestado. Se você procura um médico e ele diz que você precisa de duas doses diárias de 180mg de cloridrato de fexofenadina, você diria: “humm, acho que se eu tomar maleato de clofernadina mais um pouco de ácido ascórbico os resultados podem ser melhor você não acha doutor?”.

Claro que erros são possíveis de acontecer em todas as profissões, mas existem algumas que são passíveis de sofrer muito mais críticas que outras, como treinadores de times de futebol, presidentes e web designers.

O senhor presidente da república

O presidente coitado, não importa o que ele faça, ele sempre vai ser duramente criticado. Pelo menos se for presidente do Brasil. Se aumenta o salário mínimo, boa parte do país fica feliz, a outra parte grita aos berros chamando-o de irresponsável e se perguntando de que cofre público ele vai tirar todos esses milhões para bancar esse aumento. Mesmo que 95% da população brasileira não sabe definir o que é politica e muito menos que é um dos grandes braços da filosofia, todos são peritos ao criticar as ações do governo. Presidente é um maldito.

A mãe de um treinador é a segunda mais famosa depois da do juiz.

O treinador de futebol é outro coitado que só é reconhecido no Brasil se ganha uma copa. Ainda por cima, nem importa se ele ganhou outras no passado, se ele não ganhou essa é porque ele não presta. Não interessa mais nada ao delirío coletivo nacional senão a vitória, menos que isso é o mesmo que nada. O paladar futebolistico brasileiro não conhece o perdão, nem a derrota, só a vitória. Eu nunca vi um treinador de uma seleção brasileira ser elogiado em algum aspecto se ele chegou a perder alguma copa. Mesmo que tenha ficado em segundo. Todos querem escalar o próprio time e há torcedores que chegam a ficar bravos se o time que “ele” selecionou não entra em campo para jogar. Vê se pode? Ou seja, treinador também é um maldito.

Finalmente os malditos web designers

E o webdesigner e o arquiteto da informação quando também é designer? O que lhes resta? Todo mundo é especialista em arte (entenda isso) ao olhar para um site, para uma escultura ou para um quadro. Essa impressão é tão forte no imaginário coletivo que não resta dúvidas de que todos são especialistas em arte. E nem sempre se consegue provar o contrário. No final o designer acaba levando a fama de maldito. Mas em um processo de criação nem sempre decisões importantes vem de suas mãos.

Nosso cérebro é muito complexo e a maneira com que lidamos com o feio e com o belo é muito variável. Há quem ache a Ana Paula Arósio feia (acreditem). Isso depende de cultura (oriente e ocidente possuem grandes variações estéticas), de educação (diferenças entre uma arte tradicional e elitista e a arte kitsch por exemplo), de tempo (a mulher bela para os renascentistas é muito diferente daquela que é bela para nós hoje) e isso é algo bem básico que qualquer disciplina de história da arte poderá te mostrar. Da catarse aristotélica ao neoplasticismo de Mondrian existe um abismo que não é só temporal. Está gravado no seus neurônios a maneira com que você mesmo faz avaliações estéticas.

O design para web envolve uma grande gama de conhecimentos e detalhes e muita intuição. Todas as disciplinas humanas são bem mais flexiveis que as exatas mas ainda assim possuem um horizonte de objetividade. Ninguem critica um resultado matemático, mas eu nunca me esqueci que certa vez o jornalista Paulo Francis disse que achava Beethoven barulhento. Imaginem se Beethoven tivesse um blog hoje e ele postasse a 9º sinfonia completa lá? Aposto que teriam vários comentários elogiando e vários dizendo o quanto ele é “barulhento”.

O trabalho de um webdesigner de igual modo, assim como uma canção, sempre estará sujeito a subjetividade em termos estéticos. Nem todos percebem o mundo esteticamente da mesma maneira. Mas no geral, um bom profissional será sempre “reconhecido” apesar das críticas por soluções completas e não somento pelo design em si. Quando se trabalha em um projeto muito grande e muita, mas muita gente mesmo vai ver e acessar, as críticas passam a ser igualmente maiores.

Não se sinta um maldito!

A crítica, quando pertinente, e principalmente quando vem de usuários, é o melhor combustível existente para conhecer quais são as necessidades estéticas e práticas de determinados grupos. Poder ouvir críticas estéticas e sobre a navegabilidade de um site de muita gente é um privilégio (e não uma maldição) que o designer deve aprender a lidar.

Nem sempre o sucesso de um site depende de sua aparência, e tem muito site tosco fazendo sucesso e ganhando dinheiro como nosso amigo Cardoso já escreveu do que sites com um bom design. Uma experiência estética satisfatória fará uma enorme diferença proporcionalmente ao tamanho e o tráfego de um site. Olhe para o Google alguns anos atrás e imagine se alguém tivesse te procurado e tivesse dito o seguinte: “Cara eu fiz um site que é demais. É um sisteminha de busca. O site tem a logo um input pro cara fazer a busca e um botão escrito buscar”. Você apostaria nessa idéia?