Os Blogs e a credibilidade

Os Blogs e a credibilidade Em quem você confia mais para escrever sobre economia, em um economista ou em um jornalista? Em quem você confia mais para escrever sobre tecnologia e desenvolvimento, em um desenvolvedor experiente ou em um jornalista treinado no jargão do desenvolvimento? Quem entende mais de tecnologia, Steve Jobs e Bill Gates, dois nerds que nunca concluíram um curso sequer de graduação ou um time inteiro dos melhores jornalistas do Brasil? Enfim, em quem você confia mais, nas pessoas que escrevem de graça e por prazer ou em quem está querendo vender jornais?

O Estadão fez uma campanha recente questionando a credibilidade dos blogs. Em quem você confia mais, no blog do Guto, Fredão ou Moacir? Veja abaixo as imagens da campanha (via Brainstorm #9):

Os Blogs e a credibilidade     Os Blogs e a credibilidade

Fizeram até um comercial. O anúncio mostra alguns sujeitos de bom senso duvidoso. A idéia é opor a credibilidade da mídia tradicional, aqui no caso o jornal Estadão, com os blogs feitos por “pessoas comuns” colocadas aqui como quase sempre de credibilidade duvidosa. Poderíamos até nos perguntar (amassando um pouco mais de barro) porque diabos alguém que tem credibilidade escreveria em algum blog? Ou seja, o Estadão tem muito mais know how para falar sobre qualquer coisa que seja (turismo, praias, comportamento, psicologia e relacionamentos) do que alguém que escreve em “blogs”.

Agora vamos fazer um exercício simples. Em quem você confia mais para ler sobre dispositivos móveis, nos reviews escritos no Estadão ou na garota sem fio? Em quem você confia mais para ler sobre comunicação e propaganda, no Brainstorm #9 ou no Estadão? Em quem você confia mais para ler sobre tecnologia, no MeioBit, no Engadget (ambos escritos por verdadeiros nerds) ou nos jornais impressos/online brasileiros onde muitas vezes jornalistas (e não especialistas) escrevem sobre assuntos diversos? Você acredita mais na Globo que vetou o vídeo do Boninho e outras pessoas desocupadas que jogam ovos em prostitutas nas ruas ou na dezena de blogs que publicaram o video?

A relação de credibilidade por esta ótica é completamente relativa. Quem leu apenas as primeiras linhas deste texto e pulou para os comentários já deve estar de tochas acessas batendo na porta do Estadão para queimar jornalistas nas ruas. Todas as comparações feitas no meu texto até agora (incluindo aquela feita pelo Estadão em relação aos blogs) podem soar preconceituosas. Depende do quanto de barro você quer amassar. Quem sabe alguém não distorce o meu texto e diz que eu estou sendo preconceituoso com os jornalistas ou com blogueiros? Não é porque uma mídia possui CNPJ que ela tem mais credibilidade do que alguém que escreve de casa. E nem o contrário. Se os jornais não tivessem credibilidade alguma só não seriam extintos hoje porque ainda restaria as colunas sociais. Estas são questões que não foram escritas para contrastar conceitos absolutos. Quando idéias assim se cristalizam, fecham as portas para discussões saudáveis. Dos dois lados.

A porcaria está sim presente nos blogs, bem como em todo e qualquer tipo de produção intelectual. Até na mídia tradicional. Isso reflete a sociedade representada em fatias. Da blogosfera intelectual até os miguxos fofonêses e simpatizantes. E a medida que os blogs se popularizam, com inclusão digital crescendo no Brasil, mais porcaria proporcionalmente vai surgir. Até que o universo entre em colapso e a vida se resuma nos bons e velhos protozoários. Por que cada vez mais pessoas de todos os tipos serão representadas na web, refletindo o que são e o que pensam.

Acredito que se o Estadão não conhecesse a tendência Long Tail não teria o que temer. Eles tem sim o que temer. Se os blogs realmente não representassem concorrência (o que eu não acredito que as coisas funcionem exatamente dessa maneira, mas isso é outra história) essa publicidade em tom desafiador nem existiria. Para ser sincero eu não escrevi este texto porque me senti ofendido. Eu até sorri quando vi os anúncios. Pelo contrário, a campanha soa para mim mais como um grito de preocupação por um espaço perdido para leitores que preferem ler cada dia mais blogs (com qualidade ou não) do que um golpe de superioridade.