O que está faltando nos blogs brasileiros?

Poucas vezes eu ouvi e/ou li alguma coisa sobre a blogosfera brasileira que expressasse a minha opinião tão bem quanto a de um grupo que está tão por perto. O pessoal do BlogBits (o site não existe mais), meus chapas Bruno Torres, Diego Eis e Leo Faoro, gravaram um podcast muito interessante sobre a Blogosfera Brasileira (o site não existe mais) e a qualidade dos blogs escritos em português, que me inspirou a escrever este texto. Recomendo que você ouça o podcast e leia o texto “Faltam Leitores?” do Leo Faoro. Agora se você achar isso tudo muito grande, muito conteúdo, muito texto, junte-se as nossas estátisticas sem ressentimentos.

O problema: a qualidade dos blogs

A qualidade da produção de determinada fatia produtiva de uma nação, depende intimamente da infra-estrutura que dela depende. São fatores econômicos, incentivos fiscais a determinados setores, acesso a tecnologia, acesso a educação, problemas sociais, culturais etc, que se mensurados juntos caracterizam o perfil sociologico do Brasil e consequentemente a qualidade de sua produção. No caso dos blogs, em um país mal educado, o resultado são blogs mal feitos, mal escritos, falhos conceitualmente e que pecam consideravelmente por nem ao menos demonstrar conhecimento sobre a nomomeclatura correta daquilo que se propõe a escrever a respeito. Eles ainda criticam os outros blogs que se recusam a linkar para eles de fazerem parte de uma grande conspiração chamada classicamente de “panela“. Este termo ficou imortalizado publicamente no célebre e infame post do Walmar chamado “A agência web ideal” e também está presente por aí nos comentários de diversos blogs.

Naquele texto nota-se que a maioria dos comentários postados pelos leitores nem ao menos se limitou a criticar ou questionar a qualidade dos profissionais em si (coisa difícil de fazer quando não se trabalha junto) e sim limitaram-se a críticas relacionadas a elitização dos blogs, a conspirações de poder, coisas que foram caracterizadas como “panela”, “babação de ovo” etc. Uma das críticas que eu mais achei interessante de um tal de Leandro diz:

São sempre os mesmos!!…Na era da internet não se inova em nada, nem nas panelinhas…”

Inconsequentemente a crítica é mais do que verdadeira, o que justifica minha defesa neste texto.

A web brasileira é ruim por que faltam leitores. Na faculdade eu tive amigos que mal sabiam ler. Esse problema é geral. Nos blogs eu vejo pessoas fazerem perguntas que se elas tivessem lido o post a pergunta que elas postaram nos comentários não precisava ser feita. E depois reclamam copiosamente que os blogueiros não respondem comentários. O resultado é puro amadorismo, ignorância de coisas básicas e pedantismo. É um problema educacional. De todos os problemas o pior deles é o pedantismo, que é a representação daquele “garoto” pretensioso que corre os blogs exclusivamente para escrever coisas depreciativas, como se fosse um messias que tivesse o dever de mostrar o caminho da verdade que ele pensa saber. Quem não conhece uma dúzia deste tipo?

A solução: educação

É muito provável que nos nossos posts os links para blogs brasileiros não aumente como muitos gostariam. Quem quer escrever algo de qualidade, não terá muito o que encontrar na web brasileira. Minhas tentativas através do Diário de bordo sempre trazem poucos links naturalmente. Relacionado aos padrões web, não é possível ser um profissional nem ao menos mediano sem saber inglês; ao menos que você aprenda tudo o que existe por osmose. Os textos intermediários e avançados nem chegam a ser publicados no Brasil. E os poucos que chegam são desconhecidos da maioria. Eu achava que os livros na lateral do meu site sobre padrões web iriam vender como água. Me enganei. Nem os que estão em português são vendidos. Como um dos problemas brasileiros é a falta de infra-estrutura, parte dela devido a inexistência de textos completos publicados em português, não adianta ser nacionalista e não querer labutar nos textos em inglês. Isso será inevitável.

A cultura que se nota nos textos da maioria se resumem a soluções fragmentadas, de um saber fragmentado: conceitos raramente são trabalhados. Apenas coisas sobre como fazer isso, como fazer aquilo, código disso e código daquilo. As pessoas não querem entender, elas querem o código pronto. Isso por que não querem ler, querem um remedinho que faça uma div flutuar para a direita e pronto. Tem gente escrevendo sobre AJAX e chamando de “gambiarra de JavaScript”! Recebo dezenas de e-mail de pessoas pedindo como fazer isso ou aquilo. O que me entristece é que a decepção desse leitores quando eu não respondo é proporcional a uma situação imaginária em que eu tivesse o tempo ou fosse pago mais do que o suficiente apenas para responder todas as perguntas que me fazem. Alguns ainda reclamam quando você coloca publicidade para tentar ganhar alguns trocados.

Enquanto os leitores pensarem assim, os blogs vão seguir na mesma linha. Geralmente quanto mais profundo e reflexivo é um artigo escrito em português, menor é o poder de atração dele. As pessoas não querem e acham que não precisam “entender” tanto, elas só querem soluções paliativas. Quando alguém critica um site por ter textos grandes, é porque aquela pessoa se enquadra no livro do apóstolo Bruno da primeira carta aos Blogueiros (I Bruno, cap 02 verso 15): “não sereis leitores de títulos“.

Desfazendo a panela

Quer desfazer a panela que existe e ser linkado como água nos sites mais conhecidos? Estude inglês (nem precisa falar, basta apenas saber ler) como se você fosse morrer no próximo final de semana e dependesse disso para sobreviver. Leia e leia muito até se tornar relativamente crítico sobre um assunto. Como o Diego disse no podcast, no início você vai levar um tempo até você ser um formador de opinião. Mas é preciso ter um início. Antes de fazer uma pergunta em um blog, faça uma pesquisa no Google ou então leia o artigo todo. Na verdade, aprenda a usar o Google. Se a resposta para sua pergunta não for encontrada lá, é porque ela não existe. Não escreva sobre um assunto como se você fosse um expert se você não é. Se não se sente obrigado a saber alguma coisa não faça ensaios como se fosse ao dizer que AJAX é gambiarra, que tableless é trocar div por tabelas etc. Leia os grandes livros, não aqueles que ensinam código apenas, mas aqueles que refletem o que o código significa. Se você souber se expressar bem (nem precisa ser um Shakespeare como escritor) as pessoas vão linkar pra você naturalmente. Não demostre dor de cotovelo que isso te faz parecer mais amador ainda. Seja adulto mesmo que você não seja nas suas críticas. Aprenda a se relacionar com as pessoas e a valorizar o que elas tem de bom e várias outras observações que eu já escrevi antes.

Agora chega aquela parte em que se você quiser e tiver lido todo este texto, deixar sua opinião sobre a blogosfera brasileira. Se você sempre quis discutir sobre este assunto, agora é o momento. Nem so de uma andorinha se faz um verão.

[UPDATE DA DISCUSSÃO]