Dicas de como fazer um currículo decente

Primeiro é preciso entender a urgência desse texto. Não é brincadeira. É inacreditável a quantidade de currículo que já colocaram em minhas mãos e que não servem para absolutamente nada. Me faz pensar na educação desse país ou na psicologia humana que leva um sujeito a não prestar a mínima atenção na utilidade das informações que ele deseja comunicar para alguém que poderia vir a contratá-lo. Se você não quer parecer um completo looser ao procurar uma empresa pra trabalhar, é só me dar alguns minutos do seu tempo e ouvir o que eu tenho a dizer. Me siga que eu salvo a sua pele.

O objetivo desse texto é dar algumas dicas básicas de como você pode construir seu currículo de modo que a empresa na qual esteja pleiteando um cargo possa te considerar um sujeito inteligente e esperto que, pelo menos, sabe se comunicar – o que já conta muitos pontos na balança da contratação. Um currículo mal elaborado pode levar a “confundirem” você — em muitos casos “confirmarem” — com um cara completamente alheio a tudo o que te cerca e que é incapaz de levar uma vida normal em sociedade, muito menos de trabalhar em um local público. Então, para que você não seja confundido com este tipo de cidadão, eu devotei algumas horas da minha vida para salvar a sua pele — ou do seu amigo lerdo, irmã tonta, primo inepto, colega palerma, namorada obtusa ou vizinho néscio — de ser confundido com um retardado descuidado a procura apenas de um emprego. Vamos as lições:

Pra que serve um currículo?

A resposta a essa pergunta depende de cada empresa, cultura, país, ramo de atividade, etc. Em alguns casos, até a forma com que você assalta um banco faz com que o feito em si seja o “melhor currículo” que você poderia fazer. Cada caso é um caso. Mas no geral o currículo é um conjunto de informações que você deve comunicar a uma empresa com o objetivo de revelar que você está apto a ocupar determinada vaga de emprego. Ponto. Pode ser um vídeo, apresentação de power point, flash mob, sinal de fumaça, desenho, música, pirueta etc, dependendo de cada caso. Pense em como seria um currículo apropriado para trabalhar no Cirque du Soleil ou na produtora de filmes eróticos Brasileirinhas. Porém, se você pretende trabalhar em uma empresa na era da internet, em alguma vaga relacionada com web, mandar um PDF com o nome de “curriculo_meu_nome_completo.pdf” já está de bom tamanho, desde que siga algumas boas práticas que agora ensinarei.

Como é a cabeça de quem está procurando profissionais no mercado?

Antes de mais nada, você precisa saber o que alguém pensa quando precisa analisar currículos de profissionais para aumentar o tamanho de sua equipe, ou seja, contratar pessoas. Eu trabalho em uma empresa de TI há anos e, quando precisamos contratar, preferimos lidar somente com aqueles que sabem o que estão falando e perder o mínimo de tempo possível com currículos que não dizem nada. Para começar, você precisa saber que, quem contrata, quer separar aqueles que sabem o que querem da vida, daqueles que ainda não sabem.

Toda empresa contratante quer os melhores profissionais do mercado — e na maioria dos casos, quer também não pagar tanto para tê-lo, mas isso é outro assunto — e gostaria de ter certeza de que ele é realmente bom antes de contratá-lo, ao invés de ter a terrível surpresa, meses depois da contratação, de que ele é um completo palerma. Para isso, quanto mais informações e pistas você puder expressar indicando que você é a pessoa que detém habilidades para resolver o problema daquela empresa, melhor.

Quem está contratando está com pressa. Aliás, hoje, todo mundo está com pressa e gostaria das coisas mais fáceis e claras possíveis. Por isso, se seu currículo não comunica nada do que eu vou sugerir aqui, de fato ele comunica pelo menos que você nunca será notado por quem contrata. Em resumo tudo o que queremos é não perder tempo, falar somente com pessoas conscientes do seu papel profissional, estamos com pressa e queremos ser convencidos clara e rapidamente de que o seu currículo comunica que você sabe o que está fazendo. Se cumprir esses objetivos, há grandes chances de você ser um bom candidato ao cargo.

Vejamos agora algumas dicas básicas de como não ter seu currículo ignorado:

Básico do básico que você precisa colocar no seu currículo

Responda sempre no seu currículo algumas perguntas básicas como:

  • Qual o seu nome completo?
  • Data de nascimento;
  • Sexo — eu sei que nem todo mundo chama-se “Nadir”, mas é importante.
  • Estado civil;
  • Naturalidade;
  • Possui habilitação? De quê?
  • Sabe alguma língua estrangeira?
  • Escolaridade. Está estudando? Já formou?
  • Como eu te acho? Onde você mora? Tem telefone, celular, e-mail, MSN, Skype, frequência de rádio amador, sinal noturno com sua logomarca, etc?
  • Revise o texto do seu currículo antes de enviar para certificar-se de que não há erros ortográficos ou informações incorretas.
  • Referências profissionais: tem outros colegas de profissão responsáveis que poderiam recomendar você? Então coloque o contato deles.

Alguns podem achar frescura o que direi a seguir, mas tento me explicar: A aparência do documento do seu currículo, conta. Não estou dizendo que ele precisa chegar com um template que é uma verdadeira releitura de Mondrian pra mostrar que você é cool, não faça isso. Mas uma aparência decente ajuda na compreensão das informações, na leitura. Lembre-se: nunca, em sua existência, utilize Comic Sans em um currículo. Não me pergunte o porquê, apenas aceite isso.

No currículo, tente responder às perguntas que, obviamente, sejam importantes para o tipo de vaga que você quer ocupar. Só você sabe as condições de trabalho, local, tempo etc, relacionados à vaga pretendida. Por exemplo, se você está mandando currículo para uma empresa de outra cidade e já sabe que a vaga não é para trabalho remoto e nem freelas, dê um jeito de comunicar que você tem disponibilidade para se mudar. Porque esta obviamente é uma pergunta que será feita pela pessoa responsável pela contratação, devido à natureza da vaga. Se você for uma pessoa antenada, pode antecipar-se e colocar essa informação no currículo. Vai aumentar suas chances de ser contratado e deixar seu futuro chefe mais seguro de que você é uma opção viável.

Não imprima seu currículo. Mande-o em PDF, por e-mail. Estou sugerindo PDF por ser o formato mais prático possível. No nome do arquivo coloque algo como “Curriculo-Seu-Nome-Completo.pdf.” Esta é apenas um dica que pode facilitar a vida de um possível contratante mais descuidado e com pressa. Outra dica básica é: não minta. Precisa de defesa deste ponto?

Não me interessa saber por quem você é apaixonado, nem o nome do seu gato, ou se você coleciona latinhas de refrigerante, muito menos, qual o seu signo ou cor preferida. Pergunte-se apenas se a natureza da vaga exigiria tais informações. Não extrapole informações básicas e necessárias à sua contratação. Capitche?

Quem é você na internet?

Esse tópico é cada vez mais importante para a maioria das empresas. Muitas delas acreditam que os profissionais excelentes costumam fazer partes de grupos, eventos, etc. Perfis assim demonstrariam que essas pessoas estão, de alguma maneira, envolvidas com a comunidade de profissionais da qual fazem parte. Comunicar isso também é importante.

Coloque então informações como endereço do seu blog, Twitter, Orkut, Flickr, LinkedIn, Facebook ou comunidades de profissionais das quais você faz parte e que revelam um pouco sobre quem é você. Alguns contratantes acham interessante saber outros elementos da vida pessoal do candidato, tais como: se ele tem namorada(o), vida social, gosta de games, viagens, etc. Para outros, isso pode ser irrelevante. De qualquer maneira, coloque sempre o link dessas redes sociais para que, no caso dos contratantes se interessarem, possam consultá-las.

Se o profile das suas redes sociais tiver o template da Hello kitty ou da Sheena Rainha das Selvas, ou se você fizer parte da comunidade “Me emociono toda vez que assisto Bambi” , existem grandes chances de você não ser convidado para nenhuma entrevista, nunca na sua vida, aliás, nem de ser convidado a velórios, festas infantis, casamentos, etc. Achei importante explicitar este fato.

Quais os seus objetivos?

O que você quer fazer meu amigo? Eu recebo uma infinidade de e-mails de pessoas que não sabem o que querem fazer, ou que pelo menos foram incapazes de me comunicar o que eles querem fazer profissionalmente. Veja um exemplo:

Subject: Segue currículo em anexo.
E ai Henrique, blz? Me disseram que você tava entrevistando ae resolvi mandar meu currículo. Estou a disposição.

Na maioria das vezes não conheço o sujeito e nunca ouvir falar. Ao abrir o currículo dele ele diz saber Word, Excel e que ele já faz tal e tal website, colocando as respectivas URLs. Mas não diz se ele foi o designer ou programador de interface, comercial ou sei lá o que. Esse sujeito foi ignorado para sempre.

Deixe claro para qual atividade você pretende trabalhar. Qual é a função que você quer ocupar? O que você faz ou quer fazer aqui na minha empresa? Você precisa deixar claro os seus objetivos no seu currículo.

Sabe aqueles textos “sobre mim” onde você vai colocar que seu maior defeito é ser perfecionista e que você é um profissional que “veste a camisa”? Então, sai fora, e não faça isso com sua vida. Não escreva um “sobre mim” que não serve pra nada, muito menos com essas descrições de impacto.

Veja algumas pérolas encontradas naqueles espaços do currículo conhecidos como “Sobre Mim”:

Tornar-me, mediante a busca contínua e perspicaz pelo aprimoramento na área de comunicação e marketing, em ferramenta útil, eficaz e de eficiente manuseio na implementação de estratégias de comunicação diversas e no alcance de objetivos dos clientes ou empresas.

Com experiência em trabalho de equipe, responsabilidade, dinâmico, interesses em novos conhecimentos e crescer profissionalmente.

Conviver e trabalhar com outras pessoas, em meios multi-culturais, em funções onde a comunicação é importante e situações onde o trabalho em equipe é essencial (por exemplo, a nível cultural e desportivo), etc.

Dedicação e esforço naquilo que faço e muita força de vontade, honestidade e comprometimento, bom relacionamento interpessoal, sempre aberto a novos desafios e novos conhecimentos.

Desejo atuar em um ambiente de trabalho favorável a minha capacitação profissional, buscando áreas ligadas à tecnologia de informação e computação, principalmente desenvolvimento de sistemas, dedicando-me no possível para uma adaptação rápida na empresa.

Todos escrevem de forma tão linda poética que me dá saudade de ler Shakespeare. Entretanto, não faz o menor sentido eu estar interessado nesse tipo de informação sobre você. Todo mundo vai colocar que é responsável, dinâmico, que tem dedicação e que tem “aderência ao negócio” — quem estuda marketing, não sei porque, usa a palavra “aderência” no currículo, de alguma maneira eles dão um jeito de colocar ela lá. Isso é algo que as referências profissionais poderiam comunicar melhor caso fossem contactadas.

Quais as sua experiências profissionais?

No currículo você precisa comunicar qual a sua experiência na área pretendida. Não possui nenhuma? Sem problemas, mas não invente, mostre apenas o trabalho que você já fez e deixe claro que você não tem nenhuma experiência profissional formal naquela área. Você será muito mais respeitado sendo sincero do que inventando algo esdrúxulo.

Se você possui alguma experiência, descreva-a claramente. Coloque o nome da empresa ou do projeto, a URL da empresa, o período que ficou envolvido com essa experiência profissional e descreva o que exatamente você fazia lá. A descrição do que você fazia na empresa é importante principalmente porque nem sempre o nome da atividade descreve exatamente o que você fazia naquele emprego. Tenho amigos analistas que programam e atendem clientes com frequência. Conheço um outro que era “analista de negócios” mas seu papel era viajar aos 4 cantos do mundo para defender o produto da empresa da qual ele faz parte. Apenas informar que você foi um “analista de sistemas” não diz exatamente como essa experiência foi construída.

Entretanto, lembre-se sempre que você precisa ser objetivo e ninguém quer pegar seu currículo e se emocionar com ele ou com sua linda história de como você conquistou aquela tão sonhada vaga de emprego. Informe o que importa, aquilo que agrega valor a experiência de trabalho.

Se você é designer, programador server side focado em web, arquiteto da informação, programador de interface, ou qualquer outra função que tenha um “portifólio”, coloque-o. É extremamente importante que o contratante saiba o que você já fez. Principalmente se você não tem uma experiência profissional formal. Se você já fez algo, liste seus projetos colocando nome, data em que foi feito, URL e informe exatamente qual foi seu papel naquele projeto. Você o programou inteiro? O layout é todo seu ou tem co-autoria com outra pessoa? O CSS e HTML que está lá foi realizado somente por você? Se você não informar qual foi seu papel no projeto, como poderia ser avaliada a qualidade do seu trabalho, já que o contratante não saberá distinguir exatamente o que você fez?

Coloque as informações profissinais apenas relacionado a vaga de emprego pretendida. Eu — sim, o autor desse blog — já fui atendente daquelas lojinhas de “Tudo Por 1 Real” quando era moleque. O que diabos a minha experiência como chapa de loja varejista está relacionada com uma vaga para profissionais de experiência de usuário? A resposta é simples: “nada”. Então meu caro, sinta-se a vontade para omitir todas as experiências profissionais que não agregam valor a você como profissional. Vários garotos que pretendem se tornar programadores de interface colocam no currículo cursos de hardware e montagem de PCs como se isso os tornassem mais aptos para a vaga. Se você não está concorrendo a uma vaga de infra-estrutura, essa informação é irrelevante e não interessa ao contratante.

Gostou? Divulgue!

Foquei aqui apenas nas maiores deficiências que eu observo nos currículos que eu já recebi. Com certeza os especialistas em RH devem ter suas dicas preciosas e complementares a este texto. Se gostou do artigo, indique, mande por e-mail, mas por favor, não copie o texto na íntegra e o coloque em seu blog. Se gostou de verdade link no seu blog ao invés de repostar meu texto na íntegra. Mas isso já é #mimimi pra outro post. Fim do desabafo.