Diferença entre "Design Centrado no Usuário" e "Design Centrado no Designer"

A abordagem do “design centrado no usuário” me parece ser ainda um brinco de pérola dentro das empresas. Ele é “caro” (assunto pra outro post), bonito, não é todo mundo que tem bom gosto pra saber combinar e não se acha nas mãos dos vendedores ambulantes. Entre os ambulantes existem apenas imitação. O brinco de pérola mesmo, é caro. E como estamos falando de uma “abordagem” de desenvolvimento para web – e não de brincos ou jóias – é ainda mais complicado, porque o mercado cria espaço para os dois lados. Mas é óbvio, que eu estou aqui para defender brinco de pérola a abordagem do design centrado no usuário, e não o designer ou o arquiteto da informação ou o “especialista em experiência do usuário“. Então, não leve pro lado pessoal, please.

Este tema é polêmico e eu não sou ingênuo o suficiente pra acreditar que seria possível acabar com a discussão aqui. Ela nunca vai morrer, porque sempre vai existir pessoas que conseguem bons empregos como web designer, programação de interface, diretor de arte e blá blá blá e não sabem do que estão falando. Mas você não precisa ser um desses profissionais. Meu objetivo com este texto é deixar bem claro aqui a diferença existente entre designers que entendem de web e os que não entendem. Se tiver alguma porrada pra dar, os comentários estão abertos!

Web designers e ilustradores

Por motivos didáticos vamos convencionar aqui os seguintes termos:

Web Designers: são aqueles que entendem de design, entendem de aplicação de cor, tipografia, Photoshop e entendem do principal: de internet, de web. Esse cara conhece as características de desenvolvimento para web, e ele sabe o que significa pensar no usuário. Ele não necessariamente é especialista em implementação (HTML, CSS, PHP, etc) mas ele conhece as características da tecnologia para a qual ele está “criando”.

Ilustradores: são aqueles que manjam de Photoshop, manjam de aplicação de cor, tipografia e formas. Fazem belos trabalhos do ponto de vista visual, mas não entendem de “web” (mas ele não sabe disso, e cuidado ao contar). Ao desenhar um novo layout, eles gostam de repetir a frase “o programador de interface que se vire” quando for implementar aquele layout lindo (e bizarro tecnologicamente falando) que demonstra por si só a completa ignorância de conhecimento da “tecnologia”. Eles costumam bater no peito e dizer que desenhar usando Grids ou “pensar no código” é limitar a criatividade (sic).

Bom, definimos nossos personagens agora precisamos definir o que exatamente significa Design Centrado no Usuário mas em partes, termo por termo:

O que é design?

Wikipedia em português: “Denomina-se design qualquer processo técnico e criativo relacionado à configuração, concepção, elaboração e especificação de um artefato. Esse processo normalmente é orientado por uma intenção ou objetivo, ou para a solução de um problema”.

Wikipedia em inglês: “Design é o planejamento que coloca as bases para o desenvolvimento de qualquer objeto ou sistema”.

Pedra Lascada no formato de uma lança utilizada pelo homem pré-histórico para caça Podemos concluir então sobre “design” que esse processo normalmente é orientado por uma intenção ou objetivo, ou para a solução de um problema. Em outras palavras a “pedra lascada” construída pelo homem há milhares de anos atrás trata-se de um artefato de design. Mas o mais importante que precisa ser observado nisso tudo é que cada disciplina do design possui seu próprio conjunto de restrições e boas práticas. Se der uma olhada neste trecho da wikipedia você verá uma lista de dezenas de “disciplinas de design“. Se elas são dividas em disciplinas, isso significa que cada uma delas possui seus universos de boas práticas.

Imagem de uma pintura de mondrian versus um chale de chá. Uma obra de arte e uma obra do design.

Design não se define como arte.

Design não se define como arte! Óbvio que vou fugir agora mesmo de qualquer discussão filosófica dessa afirmação (não é o espaço), mas você pode continuar sua pesquisa dessa afirmação sozinho. Vamos considerar que, quando um propósito é definido para a criação ela deixa de ser apenas arte. Conseguimos concordar pelo menos nisso, certo? A arte transcende propósito e função. A arte pode transcender qualquer coisa. O design é limitado a propósito e função. Se você quer fazer uma “linda” cadeira, sem problemas. Ela só precisa cumprir o propósito de ficar em pé sozinha e de eu poder sentar nela. Senão ela deixa de ser “cadeira”, deixa de ser “design” e passa a ser apenas “arte”. É bom que seja confortável também. E isso é “design”, isso não é arte.

Diferença entre "Design Centrado no Usuário" e "Design Centrado no Designer"

A forma segue a função. Já ouviram falar do re-design do violão cello (imagem acima)? O modelo acima se chama Yamaha Silent Cello. Ele não é uma obra de arte, ele é uma criação de “design”. Os elementos “desnecessários” do violão cello tradicional foram removidos e somente os funcionais e pontos de contato foram deixados. Há muito mais pra se falar sobre o que é design, e eu devo ter pecado muito por deixar de falar sobre vários outros pontos, mas acho que minha definição aqui é mais que suficiente para o propósito deste texto: design segue uma função, a forma segue a função.

O que é centrado?

Bom, essa á fácil. “Centrado” é colocar algo no centro. Colocar em foco, focar. Estar em equilíbrio. Definição maior do que essa é desnecessário! Centrado é colocar no centro e ponto.

O que é usuário?

Basicamente usuários são pessoas que “utilizam” ou “fazem uso” de alguma coisa! Cada contexto e disciplina de design vai definir quem é o usuário, qual o perfil dele, e como ocorre o “uso” nos diferentes cenários. O usuário sempre será o utilizador de:

  • Usa um produto;
  • Usa um serviço;
  • Usa roupas;
  • Usa um computador;
  • Usa um celular;
  • Usa um medicamento.

Usuário é todo aquele que “interage” com alguma coisa. E “interação” é o nome que se dá a essa relação. Quando tiver que exercer o ofício de “designer” de alguma coisa, você precisa seguir as boas práticas de como seu “produto” vai interagir com o usuário. Se você está dentro de uma empresa, é bom você saber que podemos deduzir o seguinte em relação ao usuário:

  • Ele não é seu chefe ou o dono da empresa.
  • Ele não é seu gerente ou líder de equipe ou o scrum master.
  • Ele não é o cliente.
  • O usuário é quem fará uso daquilo que você criar.
  • É ele que vai interagir com sua criação.
  • O seu trabalho é resolver o problema dele e não agradar seu chefe.
  • Ele é pode ser igual e completamente diferente de você.
  • Ele pode ter (e tem) necessidades diferentes de você.
  • Ele é o ponto de partida do seu trabalho e não o fim.

O usuário são as pessoas que usam, em seus contextos e com suas capacidades e limitações. Já andou em uma calçada cheia de rachaduras e buracos empurrando um carrinho de bêbe? Eu já. A experiência é horrível. Já quebrou o pé e ficou com ele engessado e teve que sair por ai andando e se deparou com limitações físicas que te fez pensar porque diabos aquilo foi criado daquele jeito? Se você for um pouco observador, você terá analisado dezenas de artefatos ao seu redor e pensado que eles poderiam ser diferentes de como são.

As experiências descritas acima me faz colocar um outro termo na jogada: “experiência do usuário“. Todos nós vivenciamos ela diariamente, você queira ou não.

O que é experiência do usuário?

O site UXNET.ORG define: “Experiência de usuário é a qualidade da experiência que uma pessoa tem quando interage com um design específico. Isto pode ter um alcance desde objetos específicos como uma caneca, brinquedo ou web site até algo mais abrangente com experiências integradas como um museu ou aeroporto!”. Observe o tanto que essa definição faz mais sentido depois de definir o que é “design“, “centrado” e “usuário“.

Experiência de usuário é o processo de definir tudo aquilo que vai impactar na experiência que o usuário vai ter com um produto/serviço. Cada disciplina de design possui seu conjunto de boas práticas e cenários a serem explorados. Um engenheiro ou arquiteto que constrõe um prédio não precisa ter conhecimento de variações de “tamanho de tela” de diferentes dispositivos de vídeo. Quem constrõe um site não precisa ter conhecimentos de terraplanagem e de solo. O design é objetivo. O cenário é objetivo, não é subjetivo.

Sendo assim, existe um conceito adotado entre todos os profissionais de todas as disciplinas de design que é unânime: “boas práticas”.

O que são boas práticas?

Best Practice Wikipedia: “Boas práticas são técnicas, métodos, processos, atividades, estímulo ou incentivo que acredita-se ser mais efetivo na entrega de um resultado do que qualquer outra técnica, método, processo, etc, quando aplicado a uma condição particular ou circunstância. A idéia é que com processos, verificação e testes apropriados um resultado efetivo pode ser entregue com o mínimo de problemas, complicações e imprevistos. Boas práticas pode também ser definido com o mais eficiente (o mínimo de esforço) e o mais efetivo (melhores resultados) caminho para completar uma tarefa, baseado em procedimentos frequentes que já foram provados/demonstrados por si só ao longo do tempo por várias pessoas (envolvidas com essas boas práticas).”

Web designer (Designer de Interfaces) precisam saber de tecnologia?

Será que o profissional que desenha interfaces para serem convertidas em códigos de HTML e CSS precisa conhecer como algo é implementado? Coloque na sua cabeça que também etsou falando dos arquitetos da informação e toda a galera de user experience das empresas. Não pense que esses caras não são “designers”, porque eles são. Então, será que é importante eles entenderem o que é uma landing page? Será que eles precisam saber que SEO trata-se de tornar o conteúdo amigável para pessoas e tornar as informações “encontráveis”? Será que é preciso entender de acessibilidade para web? Será que não é importante saber que Flash tem seu espaço e que o espaço dele não é ao lado de SEO? Muitas dúvidas.

Como é possível criar para um cenário do qual você não conhece as características tecnológicas, possibilidades, limitações e boas práticas? Não defendo aqui que o designer de interfaces precisa ser especialista em programação de interface. Ele precisa conhecer apenas as boas práticas. Quer saber onde aprender boas práticas? Comece pelo Smashing Magazine. E lembre-se, criatividade no design não é limitado pela tecnologia. Pelo contrário, a criatividade está no completo domínio da tecnologia.

Experiência do usuário como um processo

Experiência do Usuário é um processo e não um cargo. Este processo deve estar entranhado de boas práticas, pesquisas e métodos em todas as áreas de desenvolvimento para web e não somente em um cargo específico, seja de arquiteto da informação, especialista em usabilidade etc. A principal forma de fazer isso acontecer é rever processos e treinamento da equipe inteira. Enquanto tiver um web designer, analista, programador client side, server side etc que acha que “funcionar” é o bastante, não será possível ter um processo focado no usuário.

Design centrado no designer

E o ilustrador citado no título, onde ele entra nessa história? Sou fã de ilustradores. Ilustradores são artistas. O trabalho deles é mais belo quando transcende qualquer propósito e função. Mas o bom designer para web não se faz só de observação. Ele se faz de “boas práticas”. Observar um trabalho e julgar como variável principal se o trabalho “ficou bonito”, não é design para web. O designer de interfaces que não conhece boas práticas pra web faz design pensando nele mesmo. Mesmo que ele nem saiba disso. Ou seja, “Design Centrado no Designer”.

Coloque uma coisa na sua cabeça: Criatividade no design não é limitadade pela tecnologia. Pelo contrário. A criatividade está no completo domínio da tecnologia. Ou você acha que o iPhone foi criado no Photoshop? Se você não entende o cenário para o qual você cria suas interfaces (isso vale pra arquitetos da informação também) você não é um designer eficiente. Vamos estudar galera!