Acessibilidade e o WCAG Samurai

Confesso que escrever sobre acessibilidade e o WCAG Samurai me atrai muito ao mesmo tempo em que acho um pouco nebuloso. Mas nebuloso pelo contexto e não pelo assunto em si. Talvez seja por isso que praticamente nada (com exceção do texto do Ivo Gomes) que está em Portugal) tenha sido escrito em português sobre a errata do WCAG Samurai. Nada. Vamos do início e ver o que acontece…

O WCAG é o acrônimo de Web Content Accessibility Guidelines (Guia de acessibilidade para conteúdo na web) que tem o objetivo que estabelecer padrões e técnicas de acessibilidade para a web. Como a versão do WCAG 1 foi publicado em 1999, recentemente sofreu a revisão para a versão WCAG 2 (2007). Na teoria o WCAG 2 deveria ser a evolução e a substituição do WCAG 1.

O que deveria ser sinal de esperança com o advento do WCAG 2, resultou em grande frustração. O fato é que o WCAG 2 é confusa demais e tem problemas sérios de integridade em relação aos outros padrões da web. Suas recomendações são praticamente inviáveis em vários aspectos. Para se ter uma idéia de algumas contradições, em alguns casos é necessário abrir mão de markup válida para se alcançar algum requisito do WCAG. E isto porque a W3C está por trás tanto do (X)HTML quando do WCAG. Segundo Clark, de lobby até falta de participação de pessoas com alguma deficiência marcaram todo o processo para se alcançar o WCAG 2. E o resultado não poderia ser mais triste.

WCAG Samurai

Ao invés de esperar sentados a boa vontade do WAI, o WCAG Samurai é um grupo de desenvolvedores liderados por Joe Clark (autor do livro “Building Accessible Websites“) que mandaram para o inferno os guidelines do WCAG 2 e criaram um documento de acessibilidade mais realista. Em resumo, ou você desenvolve seus sites seguindo o WCAG 2, ou o WCAG Samurai ou nenhum deles. Leia aqui. Porque não é possível seguir ambos.

O WCAG Samurai é um errata do WCAG 1 e que ignora completamente o WCAG 2. A errata diz quais partes do WCAG 1 você deve ignorar e quais são as corretas. Mais um exemplo de padrões emergindo à margem da W3C, por mãos de pessoas com reconhecimento suficiente ao ponto de serem seguidas, como as iniciativas dos microformats e HTML 5. Mas isso já é outra história.

Veja algumas considerações da errata:

  • Termos como “evite utilizar” foram banidos e deram lugar a termos como “utilize” ou “é obrigatório utilizar”.
  • Recomendação de ignorar a prioridade 3.
  • Seguir as recomendações 1 e 2 com código válido.
  • Tabelas para layout e frames foram banidos. Se necessário utilize iframes.
  • Banida a utilização de noscript. E se for utilizar Flash ou AJAX eles devem ser acessíveis.
  • Todas as páginas que querem se compliant com o WCAG Samurai devem ter (X)HTML válido e semântico.

Neste contexto, muito do que alguns validadores de acessibilidade como o WebXACT (este validador não existe mais, a empresa foi comprada pela IBM e o serviço foi descontinuado) e o Cynthia Says apontam como erros devem ser desconsiderados irrelevantes. De fato, validação nunca garantiu e provavelmente nunca vai garantir um site realmente acessível (muito menos semântico), mas agora mais do que nunca, a acessibilidade precisa ser revisitada.

Para se alcançar um bom resultado de acessibilidade, não é necessário produzir markup inválida. Uma coisa deve depender da outra. Este é um ponto crítico em relação ao WCAG e que fomentou o surgimento do WCAG Samurai. Entretanto a situação não é muito clara na prática, browsers continuam violando padrões, a W3C insistiu com o WCAG 2 mesmo que ele viole outros padrões, o que fomenta perda de credibilidade por parte da indústria e assim por diante.

De qualquer maneira recomendo a leitura completa da errata que não é muito grande. Mantenha-se atualizado também com o feed do WCAG Samurai para as constantes atualizações. Seria muito bom a participação de pessoas envolvidas com acessibilidade na divulgação e discussão do WCAG Samurai, incluindo pessoas com deficiência visual. Enquanto todos estão em silencio esperando uma solução de acessibilidade que caia do céu ou apareça pronta no seu editor de HTML, ela só vai ficar cada vez mais distante.