A ética invisível dos Blogs

Blogar é uma maneira curiosa que nós encontramos de fazer parte de uma comunidade de extensão geografica ilimitada. Todo ser humano precisa se sentir aceito em um grupo e os blogs representam apenas um único aspecto dessa necessidade que só pode ser completamente saciada (pelo menos em pessoas sadias e normais) fora da web, no mundo real. Mesmo assim blogar é divertido e tem um poder de atração muito grande para quem escreve e para quem lê. Não importa qual seja o assunto que você bloga, mas se você o faz, com certeza você faz parte ou pelo menos deseja fazer parte de um “comunidade” de pessoas que se interessam pelo mesmo assunto que o seu.

Eu levantei algumas carcaterísticas sobre blogs bem sucedidos observando outros blogs e lendo em outros sites especializados sobre o assunto. Quero deixar registrado aqui de uma forma divertida aquilo que eu considero quase que uma espécie de código de ética que eu procuro seguir e minhas impressões pessoais sobre o que eu acho que seja o ideal de blogar.

Você é uma pessoa antes de ser um blog.

A máxima é: blogs são pessoas mas você não é um blog. Isso pode parecer meio óbvio, mas procure enxergar uma pessoa por trás daquilo que você lê e por trás do que você escreve. Blogs são feitos por pessoas e para pessoas e não para máquinas. Seja humano nas suas ações blogueiras. Se blogar virar fetiche na sua vida, procure ajuda.

Relacionamento é tudo.

Respeite todo mundo. Cada leitor merece respeito, seja ele muito experiente ou completamente inexperiente sobre aquilo que você fala. Procure responder todos os e-mails que puder da forma mais gentil possível. O cara do e-mail [email protected] pode ser só um garoto pentelho ou o dono de uma grande empresa que está interessado no seu trabalho. Não deboche ou critique alguém por não saber algo mesmo que ele já deveria saber há muito tempo.

Tenha uma vida social.

Não interessa sobre o que você escreve, se você for pensar bem sobre este assunto, de alguma maneira ele serve para tornar a vida mais agradável, confortável e divertida. Mesmo que seja sobre web standards ou qualquer outro assunto abstrato. A tecnologia foi feita para nós e não nós que fomos feitos para servir a tecnologia. Ficar depois do horário no trabalho para ser valorizado pelos chefes sem necessidade nenhuma pode despertar no seu chefe um desejo desenfreado de comprar um chicote no Submarino. No final, tudo o que falamos deve servir para melhorar algum aspecto da vida. Pessoas são mais importantes do que coisas. Viaje, faça amigos, leia, arranje uma namorada, constitua família e desencana. Uma cabeça descansada e antenada com outros aspectos da vida funciona melhor e é mais produtiva do que ser aquele geek espinhento trancado no quarto. Se blogar começa a ser o maior prazer que você tem na vida, você tem problemas.

Deixe claro que você tem uma vida social.

Isso significa que você não tem que atender os problemas e dúvidas de todas as pessoas que te escrevem pedindo ajuda. Já recebi muitos e-mails pelo Revolução Etc com dúvidas ou coisas que as pessoas não estavam conseguindo resolver, seja com XHTML ou CSS. Eu tenho um emprego, uma família, minha vida pessoal e meus próprios problemas. Por enquanto eu ainda não estou prestando serviço de consultoria mas estou aberto a convites. Ao menos que você seja da Cruz Vermelha Internacional , blogar sobre alguma coisa não é se colocar de prontidão para resolver os problemas dos outros e sim compartilhar conhecimento na medida do possível. No final o montante de conhecimento compartilhado na web não caberia nos livros. Procure deixar isso claro para seus leitores. No final se eles não entenderem isso, pergunte se eles já te viram com uma sunga vermelha sobre a roupa e com um “s” no peito voando por aí.

Ensine seus leitores a pescar e nunca dê o peixe de graça.

Com o tempo você precisa deixar claro para o leitor que ele tem acesso a tudo aquilo que você já escreveu e publicou no site. Fale pra eles darem uma navegada no seu histórico de posts antes de te enviar uma pergunta que você respondeu em uns 10 artigos. Deixe claro que eles podem fazer isso de graça e sem pedir autorização. Não se sintam acanhados em navegar no histórico de posts dos blogs de ninguém para tentar encontrar aquilo que precisa. Sem falar que o Google existe e que se o leitor quer uma informação que você ainda não escreveu, no Google ele encontra. Se não conseguir tirar sua dúvida por lá é porque ela não existe.

Seja bondoso com as pessoas que comentam no post perguntando coisas que se elas tivessem lido seu artigo elas saberiam a resposta.

Muitas vezes alguns de seus “leitores” não vão ler o que você escreve. Isso mesmo, parece inevitável. Se a resposta a pergunta destes “leitores” não estiver no título muitas vezes algumas pessoas não vão conseguir encontrar o que precisam mesmo que você tenha escrito um artigo de 15.000 caracteres sobre aquilo que eles precisavam saber. Sempre haverá alguém que vai te escrever perguntando sobre uma coisa que você gastou mais de cinco horas para responder. Não se sinta desanimado, pessoas assim existem. Não perca as esperanças e continue escrevendo.

Seja objetivo no tema do seu blog.

Se seu site é sobre culinária não escreva sobre a nova versão do Mozilla, por que isso não interessa a comunidade que está a sua volta que é sobre culinária. Se você perder seu objetivo outras pessoas que também não tem objetivo na vida não vão se juntar a você e no final você vai acabar sozinho. Até hoje a coisa que mais se parece com uma comunidade de pessoas sem objetivo é chamada de sanatório. Fora isso eu não identifiquei mais nada.

Não existe concorrência.

Preocupe-se com a sua vida e esqueça a vida dos outros. Não encare as pessoas como inimigas ou concorrentes. Se blogar é um aspecto de tornar a vida mais divertida, divirta-se e faça amigos. Seja profissional. Procure se relacionar com as pessoas que escreve sobre as mesmas coisas que você sem competição. E se você for sincero você vai aprender a apreciar o trabalho dos outros tanto quanto o seu. Ao menos que você tenha caído na terra de uma nave vinda de Krypton, você não é especial o suficente que justifique seu isolamento. Aprenda a estimar a contribuição alheia.

Ignore os trolls.

Muitas pessoas vão escrever no seu site para incitar discussões sem nenhum aproveitamento. Ignore, exclua as mensagens destes tipos de pessoas e combine com seus leitores para ignorá-los também. Ofensas e discussões sem fundamentos servem apenas para “sujar” seu espaço. Seja rigoroso e delete sem pena nenhuma comentários maldosos e críticas ofensivas.

Nunca faça barganha de links com outros blogs.

Isso é uma coisa que ninguém nunca me pediu, mas muitas pessoas me falam de pessoas que escrevem pedindo para serem linkadas em seus site para aumentar o status de seus blogs no PageRank. Links não se compram e não se barganham, links são conquistados. Se seu conteúdo é legal e relevante, as pessoas naturalmente vão linkar pro seu site. É questão de tempo. Negociar links com desconhecidos te faz parecer um amador.

Disponha certa informação pessoal sobre você.

Como eu disse anteriormente blogs são pessoas. Nós gostamos de saber o que justifica aquela pessoa escrever sobre determinado assunto. Informações pessoais humaniza o conteúdo do seu site. É interessante até colocar uma foto sua para as pessoas se certificarem de que você é realmente humano e se identificarem com você. Mas não conte sua história de quando você era criança lá em Barbacena ou que você é parente do Tiririca ou de um ator da Globo. Coloque informações pessoais básicas e informações relacionadas com aquilo que você escreve. Se seu site é sobre web standards, me interessa saber seu portifólio, saber o que você estudou a experiência profissional que você tem e não que você sonhava em ser paquito quando criança. Se quer falar disso escreva um livro da sua vida, mas não coloque no “about” do seu site.

Aceite críticas e nunca entre em discussões em público.

A área de comentários do seu site não é o programa do Ratinho. Não responda a comentários e críticas rudes. Ignore todos e não tenha medo de deletar críticas deste tipo. Democracia é diferente de anarquia. Se alguém quer falar palavrão ou ficar de bate-boca em publico seu blog não é o local mais apropriado. Em contrapartida, críticas construtivas sempre deverão ser bem recebidas. Seja humilde e procure ouvir todas. Quanto maior for o seu blog, mais idéias criativas podem surgir entre seus proprios leitores. Ouvir críticas é diferente de acatar ou atender a todas elas. Saiba encontrar um equilíbrio entre seus planos e as críticas que recebe. Elas servem sempre como um termômetro do caminho que você está seguindo.

Lembre-se que você é uma pessoa pública.

Pessoas costumam se lembrar das suas gafes mais do que do seus acertos. Se errar não sinta vergonha de se retratar em público. Se escreveu errado corrija. Todos cometem erros e você vai cometer também. Não critique pessoas, critique idéias e pensamentos e deixe claro seus argumentos. Críticas passionais sugere que você é histérico e que toma remédios controlados e nunca vai sugerir que você é inteligente e possui bom senso crítico. Você pode se comportar como adulto e profissional ou como qualquer outro adolescente que não tem papa na língua. Tudo depende da imagem pessoal que você quer criar na web.

Seja honesto sempre.

Não busque ter créditos pelo que não é seu, cite sempre as fontes de inspiração dos seus textos e dos seus posts. Não se comporte como se você estivesse na segunda série e que a professora nunca vai percebeu que aquela redação que você entregou a ela foi copiada da internet. Blogar não é como estar no programa do Faustão e ninguém vai te aplaudir se ficar copiando as coisas que você vê nos sites gringos sem citar a fonte. Lembre-se, que não é só você que sabe ler em outro idioma. Se você tem o hábito de plagiar coisas da web, lembre-se que você um dia será pego.

Seja você.

Vivemos em um país onde as pessoas valorizam muito mais o que você tem do que o que você é. Nunca vivi fora do país mas tenho contato com dezenas de pessoas que vivem fora. Cada pessoa tem suas características individuais mas no Brasil a maioria das pessoas são provincianas e vão te julgar pelo que você tem, pelo que você veste e não pelo que você é (minha opinião pessoal). Nade contra a corrente e seja você. Valorize as pessoas pelo que elas são de verdade. Não se importe com o lugar onde elas moram, de que cor seja ou de que classe social elas são. Nem sempre os artigos e textos mais criativos são escritos por aqueles que são os mais conhecidos e os mais populares. Procure aprender com todos e seja original sendo você. Não imite ninguém só para ser popular. Lembre-se que o colegial acabou e você sobreviveu.

Se você se decepcionar com alguém não escreva no seu blog, procure um amigo ou escreva no seu diário.

Falar mal do Internet Explorer é uma coisa, mas começar a escrever das decepções que você tem com pessoas no seu ambiente de trabalho não é ser profissional na minha opinião. Blogs são locais públicos que tem o poder de prejudicar você e outras pessoas profissionalmente. Pessoas cometem erros, mas eu não gostaria de ter na minha empresa um funcionario que no mínimo sinal de problemas de relacionamentos corre para o blog para “malhar” outra pessoa. Compre um diário na pepaleria ou um cãozinho no pet shop para você desabafar seus sentimentos. Ao menos que você tenha um site chamado “qualquer-coisa surfistinha”, você pode falar das suas experiências mais escabrosas.

Marketing pessoal existe.

Quando criaram a frase que diz que o cão é a cara do dono, é porque ainda não tinham inventado os blogs. Seu site pessoal pode dizer mais sobre você do que você pensa. Suas ações lá refletem em partes quem você é. Nele você revela se é inteligente, moderado, bem relacionado, mostra se você sabe ler e escrever e do que você é capaz de extrair sobre um determinado assunto. Você pode achar uma grande babaquice o termo “marketing pessoal”, mas escreva para os recursos humanos do Google, Yahoo, Technorati, Microsoft, Apple e tente convencê-los de que isso é pura bobeira. Seja bem vindo ao mundo dos adultos e se quiser permanecer nele seja profissional acima de tudo.

E você, o que tem a dizer? Deixe suas críticas e conselhos nos comentários. Be good!