Vamos falar de acessibilidade?

Acessibilidade na web é um assunto fascinante pra mim. Principalmente por que eu gosto de pensar nas coisas comuns em contextos diferentes. E eu gosto, por que tratar-se de estudar formas de humanizar como nós lidamos com tecnologia. E eu adoro tecnologia! Gosto da definição do Joe Clark que diz que acessibilidade envolve fazer compensações para características que uma pessoa não pode mudar facilmente. Trata-se de tornar a web acessível e também fácil de usar. Mas entre a linda teoria e a prática, há uma distância muito grande. E quando levamos esse conceito para web, ele parece até mais distante. E o desafio de acessibilidade está nas mãos de todos envolvidos com web, arquitetos da informação, web designers, designers de interação, redatores, programadores etc.

Acessibilidade é para todos

Quando falamos de acessibilidade na web, estamos falando de várias variáveis, tenha isso em mente. Não pense apenas em pessoas com algum tipo de deficiência. Pense no Google que vai indexar o seu conteúdo (logo ele não pode ser obstrutivo por causa de javascript ou alguns tipos de sessions), pense em mim e naquele seu amigo que não tem nenhum tipo de deficiência mas que usa um browser estranho, que quase mais ninguém usa. Alias, não pense em acessibilidade apenas para deficiente. Tire este conceito da sua cabeça. Ou seja, se você desenvolve um site que só roda no Internet Explorer 6, você está me excluindo, que só utilizo o Mozilla Firefox para navegar.

Não quero ser hipócrita e dizer que é fácil encontrar soluções acessíveis para tudo. Também não quero dizer que acessibilidade vem de graça e não tem custo. Não é possível considerar todos os tipos de limitações, todos os públicos e contextos na construção de um web site. Entretanto é possível melhorar consideravelmente a acessibilidade na web para numerosos grupos e contextos. E é possível também fortalecer uma consciência de que o que fazemos, fazemos para pessoas e não para máquinas.

Grupos de pessoas e contextos tecnológicos

Quando vou pensar em acessibilidade de um site, eu divido o “problema” em dois grupos. Essa é a divisão que eu faço na minha cabeça, não li em nenhum lugar isso, apenas me organizo assim quando preciso pensar em soluções para um mundo real e estou compartilhando agora com vocês.

O primeiro grupo é aquele relacionado a tecnologia (contextos tecnológicos) que vão interpretar ou acessar o seu site, ou seja, o browser, o mecanismo de busca, o dispositivo móvel (celular e PDA ), a tela do carro que acessa a internet, a geladeira (sic), o programa leitor de tela, versões impressas do site, computadores sem mouse que tem apenas teclado como forma de navegação (ou mesmo por opção), o acesso com conexão discada, o browser sem suporte a imagem ou javascript e assim por diante. Tudo isso que eu citei está relacionado a características de dispositivos ou programas. São características e contextos tecnológicos.

O segundo grupo está relacionado as pessoas e suas características, ou seja, os usuários da tecnologia. Assim temos a pessoa com déficit de visão e que tem dificuldade de leitura, o idoso, o deficiente visual, pessoas com baixa coordenação motora, daltônicos, surdos, o usuário expert de internet apaixonado por teclas de atalho, outras pessoas sem nenhum tipo de deficiência mas que está navegando na web pela primeira vez e assim por diante. Todas essas características são humanas e caracterizam grupos de pessoas.

Experiência do usuário

Com este cenário em mente, há muito o que ser explorado em termos de acessibilidade e usabilidade na web. Voltando a definição do Joe Clark, nosso desafio é fazer compensações para características tecnológicas e humanas para assegurar o acesso a um web site. Uma interface de qualquer web site traz um desafio muito grande e interessante se você estiver disposto em pensar sobre acessibilidade, seja você um arquiteto da informação, web designer, programador, redator e até mesmo empresário, dono de um negócio na web. Todos tem responsabilidades sobre a acessibilidade de um site.

Como eu disse anteriormente, não dá para considerar todos os grupos de pessoas e todos os contextos tecnológicos. Mas quanto mais você os conhece (os grupos e contextos), mais abrangente será o poder de alcance das interfaces e ambientes da informação que você cria. O resultado disso é mais dinheiro no seu bolso (se souber vender seu peixe), mais clientes, mais usuários acessando o seu site, mais consumidores satisfeitos, mais amigos e mais conhecimento para sua caixola. Por isso, vamos falando de acessibilidade que agente se encontra!

  • http://www.flickr.com/photos/erickwilder Erick Wilder

    Sim, a acessibilidade é um ponto muito importante em tudo o que é produzido (não só na web). Gostaria de focar o seguinte ponto : "seja você um arquiteto da informação, web designer, programador, redator e até mesmo empresário, dono de um negócio na web. "

    Minha única decepção nisso tudo é que as pontas dessa "corda" chamada projeto na maioria das vezes não tem a mesma percepção; Desenvolvedores ou o "pessoal da produção" se preocupam e estudam para colocar em prática as lições de acessibilidade que aprenderam lendo ou quebrando a cabeça durante vários projetos. Do outro lado, o cliente e/ou o empresário de web não tem tanta preocupação com isso. Não é só com acessibilidade, mas com um conjunto de "pequenos detalhes" que fazem as diferenças num bom projeto. Infelizmente algumas frases feitas como "não há tempo pra perfumaria" ou "isso não faz a menor diferença; o publico alvo não tem necessidade disso" acabam limitando a aplicações de acessibilidade e usabilidade em alguns projetos. Gostaria muitoque essa minha visão mudasse, fico torcendo e sempre tentando.

    Ótimo artigo. Parabéns!

  • http://www.fazedordesite.com Rodrigo Fante

    Concordo com o Erick Wilder, acho que o maior problema da acessibilidade é justamente a ponta da corda que faz a web funcionar, que a financia, que são os clientes que pagam os sites.

    A maioria não tem idéia do que seja acessibilidade, do bem que pode produzir para quem acessa o seu site e por consequência a ele, alguns ouvem e aprendem, mas não se importam, outros, não querem nem saber do que se trata, e a maioria, não quer nem saber de pagar mais para dar acesso ao que eles acham ser somente 10%, e não adianta chorar, nem explicar N vezes.

    Nos temos o dever de aprender, explicar para o cliente e tentar ao máximo aplicar, mas no fim quem decide, é sempre o cliente, você pode negar-se a fazer um site de qualidade inferior, e eu nego muitas vezes, mas, ele vai achar outro que vai fazer o que ele quer pagar e do jeito que ele quer.

    Enquanto esse tema não sair das rodinhas de programadores, webdesigners etc… e não chegar de vez na cabeça dos clientes, o problema vai sempre existir, e hoje não tenho medo de afirmar que na web não só brasileiro como mundial, nao passam de 5% os sites razoavelmente acessíveis.

    Aqui na Itália(ao meu ver muito mais atrasada que o Brasil em desenvolvimento para Web) duvido que chegue a 1%.

  • Rochester

    A grande sacada é de mostrar numéricamente que não é "autruismo".

    E quebrar o paradigma de que implementações de acessibilidade podem atrapalhar o uso pelos usuários "normais" (se é que se pode definir um grupo "normal" hoje em dia).

    Outra questão bem interessante é que não importa seu público alvo, hoje é impossível amarrar a forma de acesso aos perfis de usuário, ou seja, em qualquer site vc vai ter que pensar na acessibilidade pois seu público alvo terá várias formas de acessar o site.

  • Vinícius Roch

    Excelente artigo, Henrique.

    Concordo totalmente. Muitos pensam que acessibilidade se resume apenas à deficientes e à colocar "alt" nas imagens. Mas não é bem assim.

    O Idioma do usuário também é uma variável para acessibilidade (ou para a falta de): por mais que o site tenha versão português e inglês, quem só fala Alemão não conseguirá compreender o site – pode até usá-lo, mas não compreendê-lo.

    Um abraço.

  • Carlos

    Se acessibilidade não é apenas para deficiêntes, então qual a diferença entre acessibilidade e usabilidade?

  • http://www.fazedordesite.com Rodrigo Fante

    Acessiblidade é focado em garantir o acesso a todos, independente do software, hardware, ou limitações do usuário.

    Usabilidade é voltado na experiência, após o acesso, intuitividade, o quão fácil(intuitivo), é de usar determinado objeto, sistema.

    A acessibilidade é garantida em diversas técnicas no código, javascript não obstrutivo, uso correto das tags, layouts de dimensões flexíveis, bom uso das folhas de estilo para adaptar o site aos diversos equipamentos.

    A usabilidade pode ser melhorada aplicando estudos já feitos, todos com foco psicológico, sobre o comportamento humano, o que vemos primeiro ao abrir um pagina? e a partir dai, para onde vai nosso olho? onde esperamos encontrar um menu de navegação?

    Ainda, facilitar o acesso do usuário as informações, deixar tudo a clique da pagina principal, no máximo 2, ter sempre um campo de busca, mostrar para o usuário claramente em que lugar do site ele esta, e dar opções de saída para ele e de acesso a pagina inicial.

    Enfim, embora usabilidade e acessibilidade sejam muito confundidas entre si, tem pouca relação.

  • http://www.edgarb.blogspot.com Luiz Valério

    Considero essa discussão sobre acessibilidade fundamental. Falando micro, não há nada mais angustiante do que precisar abrir determinadas páginas e não conseguir. Nesse tempo em que se faz quase tudo na internet, acesso fácil e rápido é fundamental.

  • Carlos

    Valeu pela explicação Rodrigo!

  • Paulo

    Olá, já que estamos falando em acessibilidade, porque não colocar um código para aumentar ou diminuir o tamanho da fonte do texto supra citado?

    Acessei usando o browser Avant com a resolução de tela em 1280 por 800 e não consegui ler o texto. Fui obrigado a mudar a resolução da tela. E quem não sabe como fazer este procedimento?

    Em casa de fereiro o espeto é de madeira?

    [] a todos.

  • Filipe Medina

    Acessibilidade é algo que já deveria ser pensado há muito tempo pelos profissionais de web e seus micro segmentos. Leitores de telas e browsers com uma leitura diferente da default (IE) já existem há tempos. Era assim com o nosso querido Netscape 4.0, e para driblar o problema, os desenvolvedores apenas colocavam aquela "linda" mensagem:

    "Melhor visualizado em Internet Explorer 5.5 ou superior"

    Apenas tapavam o sol com a peneira, e agora, com o ganho de força de browsers como Firefox, Ópera, e inclusive usuários de Apple com o Safari. Essa realidade se tornou um problema econômico, pois seu site poderá não ser visualizado ou mal visualizado por estes, e isso não é interessante para as empresas.

    Fico muito feliz que (pelo menos) agora essa discussão vem à tona. Pois é totalmente indispensável um código acessivel à todas estas ferramentas que lidamos atualmente. Mas concordo contigo que há uma grande distância do teórico ao prático, ainda vai levar um tempo para todos nós nos dar-mos conta dessa realidade, e agir de maneira correta.

    Show teu artigo,

    abraço.

  • http://www.ex-filmes.blogspot.com Marcelo Holanda

    Bem bacana o blog. Tenho um de clássicos da Sessão da Tarde.

    Vlw
    http://www.ex-filmes.blogspot.com

  • http://blog.will.eti.br/ William G. Comnisky

    Recomendo esse vídeo sobre acessibilidade:
    http://acessodigital.net/video.html

  • Pingback: Acessibilidade na Web()

  • http://www.bengalalegal.com MAQ

    Sou cego. Gosto de estar vivendo o futuro hoje. Quando conheci o WCAG 1.0, em 2001, e soube que ele existia desde 1999 e que eu não estava sozinho pensando acessibilidade para mim e para amigos de outras deficiências, não imaginava que acessibilidade acabaria sendo importante para todos, que o Bill e seu IE conseguiriam ter concorrentes, que poderíamos navegar por dispositivos móveis, que a lei de cotas começaria a fazer empresas com mais de 100 funcionários contratar ao menos 5 com deficiência e que seríamos consumidores potenciais de qualquer produto, até de livros e filmes no cinema. Sou cego. Comecei, desde o ano de 2000 com meu site a ter de aprender acessibilidade, pois eu o fazia sozinho e tinha de navegar nele e deixá-lo bonito para outros, sem a minha deficiência poderem gostar dele. Obviamente não sou design, mas tenho bom gosto e, quando quero, sei agradar. Sou cego, consumidor, casado, tenho um filho de 18 anos, fui programador de computadores do SERPRO e ganhei o suficiente para , hoje, só me dedicar a ideais. Escrevi um livro, fui pai, fiz meu site sozinho e com todos, fui o primeiro cego no mundo a ser jurado de um festival de cinema onde tive de escolher 5 filmes de 34 para ganharem prêmios. A tecnologia da audiodescrição permitiu isso. Audiodescrição também é acessibilidade. Sou cego. Tenho 50 anos e é bom estar vivo para assistir vocês discutirem meus sonhos de acessibilidade na web porque, antes, estava sozinho. Sou cego mas posso lhes dizer da minha emoção porque sou gente não só porque dizem isso por aí, mas porque sou humano mesmo!

    Henrique, seu site é maravilhoso e meu leitor de telas, que não é cego, gostou dele. Obrigado. A todos, só um conselho: é a mais pura verdade de que quem faz acessibilidade tem mais visitantes satisfeitos. Não só mais visitantes, mas muito mais satisfeitos.

    Abraços acessíveis e fáceis de usar do MAQ.

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